A importância da relação inicial mãe-bebê para a constituição e desenvolvimento de um “aparelho para pensar”, como Bion postulou

A finalidade deste texto é a de refletir, a partir do ponto de vista das teorias de dois importantes psicanalistas, a saber, Donald W. Winnicott e Wilfred R. Bion, quais são os elementos de base que a mãe provê ao bebê no início da vida e que fornecem a ele condições básicas para a constituição de um “aparelho para pensar”, como Bion concebeu. As idéias e conceitos que aqui pretendo apresentar dizem respeito à estruturação mais elementar do psiquismo (condições mínimas, mas extremamente significativas) para que, posteriormente, o bebê possa ir construindo e desenvolvendo tal “aparelho”. Desse modo, busca-se explicitar e comparar as idéias contidas nas teorias desses dois autores a respeito da relação mãe-bebê, bem como sobre as funções maternas, tomando alguns conceitos teóricos de Bion e Winnicott como objetos de estudo a serem relacionados.

De uma forma geral, pode-se pensar que o papel da mãe como fundamental no desenvolvimento emocional e psíquico do ser humano aparece em todos os autores da psicanálise. No entanto, é notável como as formas de considerar a presença da mãe e sua relevância neste desenvolvimento diferem de uma abordagem teórica para outra.

A teoria freudiana, por exemplo, indica dar mais importância ao papel do pai (diretamente relacionado à castração), que ao papel da mãe. Além disso, a ênfase da presença (tanto paterna como materna), no desenvolvimento da criança parece ser colocada por Freud nos problemas que se relacionam ao complexo de Édipo e sua resolução.

Em outra direção, Melanie Klein parece ter feito o oposto que Freud em suas teorizações sobre o desenvolvimento psíquico, atribuindo um papel central à mãe no desenvolvimento emocional primitivo, enquanto que o papel do pai figurou como de menor relevância que aquele atribuído a figura materna. Partindo da teoria freudiana, ela trouxe importantes desenvolvimentos para a psicanálise e abriu caminho para o tratamento de crianças pequenas, construindo sua teoria não mais em torno de fases, mas de posições (Posição Esquizo-paranóide e Posição Depressiva), cada uma delas com dinâmicas, ansiedades e defesas específicas. No entanto, Klein sugere ter valorizado demasiadamente a mãe introjetada pelo bebê, primeiro parcialmente (na Posição Esquizo-paranóide), e mais tarde (na Posição Depressiva) de forma total e mais integrada. A ênfase dada por esta autora parece ter sido colocada, portanto, sobre o “mundo interno” e “objetos internos” do bebê (seio bom – seio mau, mãe boa – mãe má). De tal modo, a teoria kleiniana valorizou menos a importância da mãe da realidadeexterna, conferindo maior destaque a mãe interna, introjetada. O próprio Winnicott afirma que “Melanie Klein representa a tentativa mais vigorosa de estudar os processos precoces do desenvolvimento da criança afora o estudo do cuidado da criança” (Winnicott, 1965h [1959-1964], p.116, grifos do autor).

Por outro lado, o reconhecimento da mãe real e sua importância no desenvolvimento emocional sadio podem ser encontrados tanto na obra de Winnicott como de Bion. Nesta direção, Abram (2000) aponta que até o início da década de 50, o enfoque teórico predominante no universo psicanalítico estava relacionado muito mais ao indivíduo e seu mundo interno.

Segundo a autora, a contribuição de Winnicott para a transformação deste ponto de vista não pode ser esquecida, uma vez que ele trouxe contribuições importantes, relacionadas ao indivíduo em permanente relação com seu ambiente1 (p.26). No artigo “Ansiedade associada à insegurança” (1958d [1952]), Winnicott afirma que o bebê não pode ser considerado como uma unidade independente do ambiente que lhe provê cuidados, e diz:

Isso que chamam de bebê não existe. […] se vocês me mostrarem um bebê, mostrarão também, com certeza, alguém cuidando desse bebê, ou ao menos um carrinho ao qual estão grudados os olhos e ouvidos de alguém. O que vemos,

então, é a “dupla amamentante”. (p. 165, grifos do autor)

Esta passagem confirma que Winnicott ressaltou a importância do ambiente e da relação da mãe com o bebê como fundamental no desenvolvimento, principalmente nos primeiros estágios, o qual ele denominou de dependência absoluta. Ele entendia que no início da vida, o bebê existe como uma estrutura ambiente-indivíduo (um par), que o sustenta e lhe fornece cuidados. Winnicott afirma: “No início, o indivíduo não é uma unidade. Para o observador externo, a unidade é o conjunto ambiente-indivíduo” (Winnicott, 1953a [1952], p. 308). Na passagem a seguir, ele novamente comenta sobre as idéias kleinianas e, do seu ponto de vista, ela teria desconsiderado a importância dessa unidade:

Não há nada no trabalho de Klein que vá contra a idéia de dependência absoluta, mas me parece não haver nenhuma referência específica ao estágio em que o lactente existe tão-somente por causa do cuidado materno, junto com o qual ele

forma uma unidade. (Winnicott, 1960c, p. 42)

Ainda que Winnicott faça esta afirmação, parece que ele não queria dizer que não existem observações e teorizações fundamentais, do ponto de vista de quem examina o que ocorre com o bebê, mas tão somente esclarecer que o ambiente (tal como o autor o entende), também deveria ser considerado e examinado, ao lado do cuidado materno. Neste fragmento ele parece apontar esta ideia:

Metade da teoria do relacionamento paterno-infantil se refere ao lactente, e é a teoria da jornada do lactente da dependência absoluta, passando pela dependência relativa, à independência, […]. A outra metade da teoria do relacionamento paterno-infantil se refere ao cuidado materno. (Winnicott, 1960c, p. 43)

Em, Os Bebês e suas mães (1987a) Winnicott assinala o que ele entende como o percurso de desenvolvimento: “Pode-se afirmar que a história do desenvolvimento infantil é uma história de dependência absoluta, que avança firmemente através de graus decrescentes de dependência, e vai tateando, em direção à independência” (Winnicott, 1970a, p. 73). Sobre a importância de reconhecer o fato da dependência, ele afirma que: “A dependência é real. É tão obvio que os bebês e as crianças não conseguem se virar por si próprios, que as simples ocorrências da dependência passam facilmente despercebidas” (Winnicott, 1987a, p. 73).

Em decorrência do autor não conseguir pensar o bebê como separado do ambiente e da dependência dele, Winnicott destacou esta questão e nomeou três fases de dependência: a dependência absoluta, a dependência relativa e rumo à independência. A passagem bem-sucedida do bebê por estes estágios fundamenta-se, para ele, na existência de uma mãe-ambiente suficientemente boa desde o começo da vida e, sobretudo neste período.

De acordo com Winnicott, embora exista uma tendência básica para o amadurecimento e uma tendência inata à integração, é indispensável que o bebê receba cuidados de um ambiente (ressaltando que este deve ser essencialmente humano), que se adapte as suas necessidades e possibilite a sua continuidade de ser. O autor afirma:

inicialmente uma dependência absoluta, e o meio ambiente é de grande importância. […]. É certo que um bebê não poderá tornar-se uma pessoa se só existir um meio ambiente não-humano; nem mesmo a melhor das máquinas pode

oferecer aquilo que se necessita. (Winnicott, 1968d, p. 82)

De modo análogo a Winnicott, pode-se afirmar que Bion ressaltou a importância da mãe real em sua teoria. Além disso, esses autores destacaram também a relevância da introjeção das funções maternas pelo bebê por meio da relação que ele e a mãe estabelecem no início da vida, para que seu desenvolvimento psíquico possa ocorrer. Assim, é possível reconhecer nas teorias bioniana e winnicottiana a idéia de que é através da relação inicial com a mãe real que o bebê pode sedimentar as bases para continuar se desenvolvendo e construir aquilo que Bion denominou de “aparelho para pensar”. A capacidade da mãe de atender as necessidades e de conter e digerir as angústias de seu filho está intimamente relacionada à possibilidade do bebê vir a formar este aparelho.

Enquanto que Winnicott parece utilizar o conceito de “preocupação materna primária” para designar um estado psíquico especial da mãe que a permite identificar-se com seu bebê e fornecer a ele aquilo que necessita, Bion emprega o conceito de “Rêverie” para nomear tal estado, ainda que ele apresente diferenças em relação ao conceito winnicottiano. Entretanto, essas duas idéias parecem ter como ponto semelhante a capacidade materna de captar aquilo que acontece com seu bebê e fornecer a ele uma adaptação sensível a suas necessidades, sejam elas físicas, psíquicas ou relacionais.

Winnicott formulou uma teoria sobre o desenvolvimento emocional onde a saúde do ser humano tem suas bases assentadas bem no início da vida, através das relações do bebê com sua mãe. Segundo ele, inicialmente, a mãe deve amar o bebê de um modo físico, por meio do calor corporal, do contato com ela, de acordo com as necessidades dele. Desse modo, ela protege seu filho e vai apresentando a ele pequenas porções de mundo, nos momentos adequados, de modo a fornecer ao bebê uma continuidade (Winnicott, 1948b, p.237-238). Nas palavras do autor:

É especialmente no início que as mães são vitalmente importantes e de fato é tarefa da mãe proteger o seu bebê de complicações que ele ainda não pode entender, dando-lhe continuamente aquele pedacinho simplificado do mundo que ele, através dela, passa a conhecer. (Winnicott, 1945d, p. 228)

Em “A preocupação materna primária” (1956), Winnicott apresenta quais são os elementos básicos que a mãe deve fornecer ao seu bebê para que ele se desenvolva. Destaca a importância de uma adaptação atenta e sensível da mãeambiente no desenvolvimento saudável do bebê, principalmente nos estágios mais iniciais da vida (de dependência absoluta), no qual ela deve encontrar-se numa condição psicológica especial. Nestas primeiras etapas da existência e da experiência humana, o bebê é extremamente dependente do cuidado materno para colocar em ação suas tendências inatas ao desenvolvimento, em termos físicos e psíquicos, uma vez que ele nasce frágil e impossibilitado de sobreviver sem um ambiente que cuide dele. Diz Winnicott:

[…] seria muito proveitoso levarmos em conta o lugar da mãe. Existe algo que chamamos de ambiente não suficientemente bom, que distorce o desenvolvimento do bebê, assim como existe o ambiente suficientemente bom, que possibilita ao bebê alcançar, a cada etapa, as satisfações, ansiedades e conflitos inatos e pertinentes. (Winnicott, 1956, p.399)

Na saúde, ele afirma que a mãe é naturalmente conduzida ao longo de sua gestação a alcançar, biológica e emocionalmente, um estado psicológico para lidar de um modo especial com seu filho e com as necessidades deste, através de uma identificação profunda que estabelece com ele, levando-a a desempenhar satisfatoriamente a função materna, como aqui o autor aponta:

[…] a mãe através de sua identificação com o lactente sabe como o lactente se sente, de modo que é capaz de prover quase exatamente o que o lactente necessita em termos de holding e provisão ambiental em geral. Sem tal identificação acho que ela não seria capaz de prover o que o lactente necessita no começo, que é uma adaptação viva às necessidades do lactente. (Winnicott, 1960c, p.53, grifos do autor)

Este estado psíquico é denominado por ele como “preocupação materna primária” e pode ser descrito como o ingresso da mãe em um estado de sensibilidade acentuado durante e no fim da gravidez, que quase se assemelha a uma doença e que perdura por algumas semanas após o nascimento do bebê. Winnicott afirma:

Neste estado, as mães tornam-se capazes de colocar-se no lugar do bebê, por assim dizer. Isto significa que elas desenvolvem uma capacidade surpreendente de identificação com o bebê, o que lhes possibilita ir ao encontro das necessidades básicas do recém-nascido, de uma forma que nenhuma máquina

pode imitar, e que não pode ser ensinada. (Winnicott, 1964c, p. 30)

De acordo com Winnicott, as mães dificilmente se lembram deste estado, uma vez que esta fase onde ela encontra-se “saudavelmente doente” tende a ser reprimida e, portanto, permanecer inconsciente. Para ele, as mães devem entrar neste estado, “adoecer temporariamente” e, em seguida, recuperar-se dele, à medida que o bebê torna-se menos dependente dela. Este é um conceito que parece envolver sutilezas da função materna e do estado que a mãe se encontra. Talvez seja por isso que notamos alguma dificuldade do próprio autor para colocar

em palavras a totalidade da idéia:

Essa condição organizada (que seria uma doença no caso de não existir uma gravidez) poderia ser comparada a um estado de retraimento ou dissociação, ou a uma fuga, ou mesmo a um distúrbio num nível mais profundo, como por exemplo um episódio esquizóide, onde um determinado aspecto da personalidade toma o poder temporariamente. Gostaria muito de encontrar um bom nome para essa condição, e propor que ele seja adotado como algo a ser levado em consideração toda vez que fosse feita referência à fase inicial da vida do bebê. (Winnicott, 1956, p. 401)

Inicialmente, esta capacidade da mãe para colocar-se no lugar do bebê e perceber aquilo que ele precisa, se expressa pelo atendimento adequado que ela fornece, via cuidados corporais, as necessidades de seu filho. Aos poucos, Winnicott entende que vai ocorrendo uma “elaboração imaginativa das funções corporais”, através das experiências que o bebê experimenta por meio do toque e dos cuidados maternos. Com isso, surgem necessidades de outra ordem, egóicas. O autor acredita que, quando a função materna no início é suficientemente boa e a mãe consegue se recuperar do estado de “preocupação materna primária”, ela vai ficando livre para retomar alguns dos interesses que temporariamente abandonou para que pudesse preocupar-se e se ocupar do filho, e assim o bebê pode vir a perceber a mãe como uma pessoa. Desse modo, para que um bebê se desenvolva de forma saudável, Winnicott entende que é imprescindível a presença de um ambiente humano especializado no início.

Quando este estado de coisas não ocorre, ou seja, quando a mãe não é capaz de se comunicar profundamente com seu bebê, por meio de uma identificação com ele (que em grande medida é inconsciente), Winnicott afirma que este pode apresentar falhas ou distorções no curso do seu processo de desenvolvimento e na sua “continuidade de ser”. Segundo ele, o bebê apenas conseguirá constituir seu ego através do apoio e sustentação de uma mãe capaz de alcançar o estado de “preocupação materna primária”, propiciando que a “continuidade de existir e ser” do bebê não seja interrompida e invadida. Winnicott diz:

Nos primeiros estágios desse processo, o bebê é extremamente dependente do cuidado materno, da presença contínua e da própria sobrevivência da mãe. Esta deve realizar em si uma adaptação ativa suficientemente boa às necessidades da criança, sem a qual esta não pode evitar desenvolver defesas que distorcem o processo; o bebê precisa, por exemplo, assumir ele mesmo a função ambiental se esta não se impõe do exterior, de modo que constitui-se nele um self verdadeiro escondido e, voltado para fora, um falso self engajado na dupla tarefa de esconder o self verdadeiro e ceder as exigências que o mundo lhe impõe a todo momento.

(Winnicott, 1965 [1955], p. 215, grifos do autor)

A saúde física e psíquica do bebê dependerá, de acordo com este autor, da capacidade da mãe de ingressar e sair desse estado tão especial. Winnicott esclarece ainda que as falhas neste período não são sentidas pelo bebê como falhas maternas, mas como uma intrusão e uma ameaça na sua “continuidade de

ser” (Winnicott, 1956, p. 403). Ele afirma:

Em nossa teoria do cuidado infantil, a continuidade do cuidado tornou-se característica central do conceito de meio ambiente facilitante e observamos que, através dessa continuidade da provisão ambiental, e somente através dela, o novo bebê em dependência pode ter continuidade na linha de sua vida, evitando-se o estabelecimento de um padrão de reagir ao imprevisível e sempre começar de novo. (Winnicott, 1971a, [1968], p.191)

Sendo assim, Winnicott entende que é por meio dos cuidados providos pela mãe em estado de preocupação materna primária que são fornecidos os elementos de base para que o bebê se desenvolva de maneira satisfatória. Poderíamos pensar que esses subsídios seriam também a “matéria-prima” utilizada para a construção de um psiquismo dotado de um aparelho para pensar, como Bion teorizou? Eles seriam equivalentes aos elementos que este autor descreve? Pretendo percorrer agora algumas passagens da obra de Bion, para verificar o que ele entende a respeito do que fornece a mãe ao bebê para que este possa se desenvolver e constituir tal aparelho. Parece que Bion igualmente sugere que eles são adquiridos através da relação primordial do bebê com a mãe, embora essa aquisição ocorra de outra maneira daquela descrita por Winnicott, ainda que este último não tenha desenvolvido uma teoria incluindo a existência desse aparelho. Todavia, minha tentativa é a de fazer uma aproximação das idéias desses autores (que me parecem guardar também semelhanças), sobre a relação inicial do bebê com a mãe, procurando esclarecer o que eles acreditam que a mãe provê de realmente significativo ao bebê para que ele se desenvolva satisfatoriamente e venha a construir um “aparelho para pensar”.

Buscando esta aproximação, Bion parece compreender que, no início da vida do bebê, a mãe precisa estar em uma condição análoga a descrita por Winnicott (referindo-me ao conceito apresentado acima de “preocupação materna primária”), condição a qual ele chamou de “rêverie”. Este estado psíquico, também na maior parte inconsciente, alude à capacidade da mãe de receber, conter, decodificar e nomear as angústias de seu bebê. Segundo ele, apenas depois de receber e conter esses conteúdos, que foram colocados dentro dela (através do emprego pelo bebê de identificações projetivas), é que a mãe deverá devolvê-los devidamente desintoxicados para o filho. Assim, Bion confere grande importância a essa função materna, uma vez que entende que “a capacidade de reverie da mãe é o órgão receptor da colheita de sensações que o bebê, através de seu consciente, experimenta em relação a si mesmo” (1962, p. 134, grifos dele).

Esse autor propôs uma teoria sobre o pensar e nela, concebeu a existência de um aparelho que se desenvolve, se tudo correr bem, para pensar os pensamentos, sendo que os pensamentos, em sua opinião, já existem antes de tal aparelho. Cito Bion, comentando sobre essas idéias:

É conveniente encarar o pensar como uma atividade que depende do resultado satisfatório de dois desenvolvimentos mentais básicos. O primeiro desenvolvimento é o dos pensamentos. Estes requerem um aparelho que deles se encarregue. O segundo desenvolvimento, conseqüentemente, é o desenvolvimento do aparelho que provisoriamente chamarei [atividade ou faculdade de pensar] (Bion, 1962, p.128).

Bion acredita que os pensamentos são classificados de acordo com a natureza de sua história evolutiva, ou seja, inicialmente existem as préconcepções, em seguida as concepções, os pensamentos, conceitos e assim por diante. O autor utiliza como modelo a teoria de que o bebê tem uma disposição inata que corresponde à expectativa de um seio (o que ele chamou de pré-concepção). Para Bion, o pensamento pode ter início quando uma préconcepção se une a uma realização. De acordo com ele, quando uma pré-concepção (a expectativa de um seio), tem contato com uma realização (o seio – experiência de satisfação), desenvolve-se uma concepção na mente do bebê. Dessa forma, toda vinculação de uma pré-concepção com uma realização gera uma concepção, que está associada a uma experiência emocional de satisfação. No entanto, Bion ressalta que há uma diferença fundamental para que se desenvolva um pensamento, uma vez que a união da pré-concepção deverá ser com uma realização de um não-seio:

Restringirei o termo “pensamento” à união de uma pré-concepção com uma frustração. O modelo que proponho é o de um bebê cuja expectativa de um seio se una a uma “realização” de um não-seio disponível para a satisfação. Essa união é vivida como um não-seio, ou seio “ausente”, dentro dele. O passo seguinte depende do bebê de tolerar frustração. Depende que a decisão seja fugir da frustração ou modificá-la (Bion, 1962, p.129).

Em algum momento, Bion explicará e diferenciará dois tipos de realização: a positiva (ligada à satisfação, ao seio), e a negativa (ligada à frustração, ao não-seio). Ele acredita que: “Se a capacidade de tolerar a frustração for suficiente, o não-seio se transforma num pensamento, e desenvolve-se um aparelho para ‘pensá-lo’” (Bion, 1962, p. 129). Se isso não ocorrer, ou seja, se não houver tolerância à frustração, o que acontece é que:

O que deveria ser um pensamento – um produto da justaposição da pré- concepção e a “realização” negativa – torna-se um objeto mau, indistinguível de uma coisa-em-si, e que se presta apenas a evacuação. Conseqüentemente, o desenvolvimento de um aparelho para pensar fica perturbado, e, em vez disso, dáse um desenvolvimento hipertrofiado do aparelho de identificação projetiva (Bion, 1962, p. 130).

Assim, não há possibilidade de desenvolvimento desse aparelho sem alguma tolerância à frustração. De acordo com Bion, se essa capacidade para tolerá-la não existir, haverá grandes prejuízos para a capacidade de pensar, o que poderá dar lugar para o avanço deste “outro aparelho”, cuja especialização é a evacuação. No entanto, e o autor lembra que:

A incapacidade de tolerar frustração poderá obstruir o desenvolvimento dos pensamentos e da capacidade de pensar, embora a capacidade de pensar diminuísse o sentimento de frustração inerente ao reconhecimento do hiato que existe entre um desejo e sua satisfação. (Bion, 1962, p. 130)

Parece que, tanto na teoria de Bion como na de Winnicott, a frustração exerce grande influência no desenvolvimento emocional, como algo que propicia ou atrapalha esse desenvolvimento. É plausível pensar que a frustração pode ser considerada evolutiva, desde que inicialmente vivida na presença de uma mãe em estado de preocupação materna primária ou em capacidade de rêverie, ou seja, desde que estas frustrações não sejam excessivas (que não ultrapassem uma faixa tolerável, um limiar que provocasse uma ruptura na continuidade de ser do bebê), uma vez que a mãe está lá, ao lado do bebê para sustentá-lo (holding) e fazer a digestão dos conteúdos brutos expelidos por ele. Mais tarde, ela deverá falhar também, o que Winnicott chamou de “desilusão”, processo importante para o desenvolvimento, já que a escassez de frustrações também resultará em problemas, como pode ser a predominância da onipotência.

Segundo Bion, é a mãe “quem maneja a personalidade do bebê e outros elementos do meio” e se, nesta relação, mãe e bebê conseguirem se ajustar reciprocamente, a identificação projetiva será utilizada pelo bebê de uma forma normal (1962, p. 132). O autor entende “a identificação projetiva como forma inicial do que mais tarde se chama capacidade para pensar” (1962, p. 60), que se desenvolve adequadamente, do modo como estou entendendo, apenas na presença de uma mãe com capacidade de rêverie, que receberá os conteúdos brutos (que ele chamou de elementos-beta), projetados pelo bebê e gerará destes, conteúdos mentais ou, como Bion chamou, elementos alfa. Pode-se pensar que é por meio dessa função materna (receber, conter e transformar estas projeções), que ela poderá ajudá-lo a desenvolver a tolerância à frustração e, conseqüentemente, um aparelho para pensar; ou seja, poderá ajudá-lo no desenvolvimento das mesmas funções que ela, inicialmente, realiza por ele. O autor afirma:

Quando sob forma de atividade realista, a identificação projetiva manifesta-se como conduta que premeditadamente visa a despertar na mãe, sentimentos dos quais o bebê deseja livrar-se. Se o bebê sente que está morrendo, pode despertar na mãe o receio de que ele esteja morrendo. A mãe equilibrada consegue aceitar esse temor e reagir terapeuticamente, isto é, de modo a fazer com que o bebê sinta estar recebendo de volta a sua própria personalidade amedrontada, mas de uma forma tolerável- os temores passam a ser manejáveis pela personalidade do

bebê (Bion, 1962, p. 132)

Para Bion, isto propicia o desenvolvimento da capacidade de pensar, através da introjeção da função-alfa materna. “Se a mãe não puder tolerar tais projeções, o bebê não terá outra alternativa senão o recurso à contínua identificação projetiva, levada a cabo com força e freqüência crescentes” (Bion,1962, p.132). Desse modo é fundamental que a mãe consiga receber as projeções do bebê e transformá-las, uma vez que:

A personalidade do bebê não é capaz de, por si só, fazer uso de dados sensoriais; tendo, porém, de evacuar esses elementos na mãe, confiando em que ela faça o que quer que tenha que ser feito para transformá-los, de modo que se tornem adequados ao emprego, por parte do bebê, como elementos alfa. (Bion, 1962, p.134)

Se a mãe for capaz de aceitar essas evacuações e puder dar continência aos conteúdos que o bebê projetou, transformando-os, antes de devolvê-los para o mesmo, Bion afirma que o desenvolvimento pode ocorrer. Se o oposto acontece, ele acredita que o bebê vive um pavor indefinível. Cito Bion:

Dá-se um desenvolvimento normal se a relação entre o bebê e o seio permitir que o bebê projete, na mãe, a sensação, digamos, de ele estar morrendo; e que o bebê reintrojete essa sensação, após a permanência no seio ter feito com que a mesma se torne suportável para a sua psique. Se a projeção não for aceita pela mãe, o bebê sente que retirou da sensação dele, de estar morrendo, o significado que esta possui. Conseqüentemente reintrojeta não um medo de morrer, agora

tolerável, mas um pavor indefinível, sem nome. (Bion, 1962, p. 134).

Assim, é possível pensar que, quando a mãe falha nesta função, o bebê tem um trabalho maior e bastante difícil, uma vez que ele ainda não tem recursos para dar significado aos seus conteúdos sensoriais, que agora voltarão para ele, provavelmente acrescidos e contaminados por elementos da mãe incapaz de contê-los. Desse modo, parte importante da rêverie materna é a função alfa, alguma coisa que promove uma desintoxicação dos conteúdos que o bebê projetou na mãe e que ela os devolve apenas posteriormente, após realizar uma transformação, como aqui Bion afirma:

Na situação em que a criança projeta o elemento –B, digamos, o medo de estar morrendo, este é recebido pelo continente de um modo tal que é “desintoxicado”, ou seja, modificado pelo continente; assim, a criança pode retomá-lo dentro de sua própria personalidade sob uma forma tolerável. É uma operação análoga aquela desempenhada pela função alfa. A criança depende de a Mãe agir como sua função alfa. (Bion, 1963, p.41)

De forma semelhante à Winnicott, Bion parece aqui fazer referência ao reconhecimento da dependência do bebê da mãe real. Para ele, “a função- alfa torna acessível ao bebê o que, de outro modo, lhe permanece inacessível, para qualquer eventualidade exceto evacuar como elementos-beta” (Bion, 1962, p. 59). Quando a mãe realiza esta função satisfatoriamente, ocorre que:

[…] a criança, sofrendo acessos de fome e medo que esteja morrendo, estraçalhada por culpa e ansiedade, impelida por voracidade, evacua e chora. A mãe pega a criança, alimenta-a e a conforta; eventualmente, a criança dorme (Bion, 1963, p. 45).

Winnicott, no entanto, não acredita na possibilidade do bebê tão cedo sentir culpa ou ser agressivo, entre outras coisas que, no seu entendimento, só podem ocorrer mais tarde, como uma conquista integrativa do desenvolvimento. De acordo com as ideias desse autor, o bebê chuta, chora, grita, esperneia e se movimenta de várias formas, mas tudo isso é apenas expressão do fato dele estar vivo, ou seja, da sua motilidade.

Bion defende que: “a mudança realizada pela mãe que aceita os temores da criança é uma mudança que depois será realizada pela função alfa, nas personalidades cujo desenvolvimento tenha sido relativamente bem-sucedido” (1963, p. 41). Para ele, “O pensar depende da introjeção bem-sucedida do seio bom, responsável originalmente pela performance da função alfa” (Bion, 1963, p. 46, grifos do autor), o que ressalta que esta função na mãe é indispensável para que a criança possa também desenvolvê-la. Em O aprender com a experiência, ele descreve o conceito de rêverie:

O termo rêverie aplica-se a todos os conteúdos. Reservo-o entanto apenas àquele que se infunde de amor ou ódio. Nesse sentido estrito a reverie é estado mental aberto a quaisquer “objetos” do objeto amado e, portanto, acolher as identificações projetivas do bebê, se boas ou más. Em suma, a reverie é fator de função-alfa da

mãe. (Bion, 1962, p. 60)

Assim, para Bion, a capacidade materna de rêverie versa sobre a atitude da mãe de poder receber, conter, significar e nomear as angústias do bebê para somente depois devolvê-las a ele, devidamente desintoxicadas. No entanto, ele afirma:

Inseparável da capacidade da mãe para a reverie é o conteúdo desta, de vez que um claramente depende do outro. Mãe nutrícia sem reverie ou detendo-a sem associar amor pelo bebê, ou pai dele, o fato transmite-se ao bebê, ainda que lhe seja incompreensível. O atributo psíquico impregna os meios de comunicação, os vínculos com o bebê. O que acontece, depende da natureza dos atributos psíquicos maternos e o impacto deles sobre os do bebê, pois a ação de um sobre o outro é uma experiência emocional. (Bion, 1962, p.59-60)

Fundamentalmente, enquanto que Bion denomina de “rêverie” uma das mais importantes capacidades maternas, que visa conter e transformar as angústias do bebê, atendendo as suas necessidades, acredito que o conceito de Winnicott é análogo, uma vez que esta capacidade está contida no conceito de “preocupação materna primária”, que inclui o que ele denominou de holding materno. Para Winnicott, o holding (ou sustentação) refere-se a tudo aquilo que a mãe faz no início e que dá confiança ao bebê, garantindo a continuidade de sua existência, através do segurar físico e psicológico. Para ele, “O holding inclui especialmente o holding físico, que é uma forma de amar” (Winnicott, 1960c, p. 49).

No entender de Winnicott, se tudo correr bem no início, através da adequada adaptação materna, o bebê adquire, posteriormente, uma mente2 em decorrência da integração psicossomática. De acordo com ele, a mente tem início quando a mãe não se adapta mais tão precisamente às necessidades do bebê e este começa então a estabelecer relações entre os fatos e a fazer previsões para lidar com as falhas maternas:

No processo de criação dos bebês, é vitalmente importante que as mães forneçam desde o início esta adaptação ativa, primeiro em termos físicos e posteriormente em termos que incluem a imaginação, mas também é característica essencial da função materna uma gradual falha na adaptação, de acordo com a crescente capacidade do bebê individual de suportar a falha relativa por meio de sua atividade mental, ou seja, por meio da compreensão. (Winnicott, 1954a [1949], p.335, grifos do autor)

Ainda que o conceito de mente winnicottiano seja diferente do modelo proposto por Bion, parece que a provisão materna combinada com doses toleráveis e graduais de frustração auxilia no desenvolvimento emocional do bebê. Winnicott afirma que a raiz mais importante da mente está na necessidade do indivíduo de ter um ambiente quase perfeito (Winnicott, 1954a [1949], p.335). De acordo com ele:

Inerentes ao crescimento, então, encontram-se a dor e a ansiedade vinculadas aos vários fenômenos resultantes das falhas na técnica do cuidar. Na saúde, o ambiente […] falha de modo gradual, a partir de uma adaptação inicial quase perfeita. (Winnicott, 1958d [1952], p.166)

Se, inicialmente, o ambiente não se adapta adequadamente as necessidades do bebê, é possível que este desenvolva precocemente uma mente que tentará dar conta dos cuidados e funções que deveriam ser fornecidos por uma apropriada sustentação ambiental. Assim, com um funcionamento hiperativo da mente, o desenvolvimento psicossomático do bebê poderá ficar prejudicado, resultando em um distanciamento da relação entre psique e soma, o que pode originar aquilo que Winnicott chamou de uma “psique-mente” (Winnicott, 1954a [1949], p.336-337). Em suas palavras:

[…] no crescimento excessivo da função mental em reação a uma maternagem errática, percebemos que surge uma oposição entre a mente e o psicossoma, pois em reação a este ambiente anormal o pensamento do individuo assume o poder e passa a cuidar do psicossoma, enquanto na saúde é o ambiente que se encarrega de fazê-lo. Na saúde a mente não usurpa as funções do ambiente. (Winnicott, 1954a [1949], p. 336)

Embora o bebê necessite, no início, de um ambiente que lhe sustente e assegure sua continuidade de ser, a mãe deverá falhar com o passar do tempo e a mente do bebê deve ajudá-lo, se ele estiver se desenvolvendo bem, a tolerar as falhas maternas, como Winnicott parece explicar aqui:

A necessidade de um ambiente bom, de início absoluta, torna-se rapidamente relativa. A mãe devotada comum é suficientemente boa. Se ela é suficientemente boa, o bebê virá a dar conta de suas falhas através da atividade mental.

(Winnicott, 1954a [1949], p.335).

De acordo com ele, com o desenvolvimento da capacidade mental: “O lactente desenvolve meios para ir vivendo sem cuidado real. Isto é conseguido pelo acúmulo de recordações do cuidado, com o desenvolvimento da confiança do meio” (1960c, p.46, grifos dele). Deste modo, se o bebê se desenvolve bem, através da presença de uma mãe suficientemente boa, que entrou no estado de “preocupação materna primária” e que saiu dele, este conjunto de fatos:

[…] capacita o bebê a começar existir, a ter experiências, a constituir um ego pessoal, a dominar os instintos e a defrontar-se com todas as dificuldades inerentes à vida. Tudo isto é sentido como real pelo bebê que se torna capaz de

ter um eu, […]. (Winnicott, 1956, p.404)

Pode-se pensar numa aproximação dos conceitos de “mente hiperativa” (de Winnicott) e do “aparelho especializado em identificação projetiva” (de Bion), uma vez que os dois consistem em defesas que se organizam a partir das excessivas falhas maternas no período inicial da vida do bebê. Esses dois modos patológicos de funcionar são distintos entre si e parecem expressar diferentes maneiras de existir, tendo, portanto, implicações e desdobramentos diferentes um do outro. No entanto, sugiro que eles guardem alguma similaridade, na medida em que são formas que afastam o bebê do caminho de um desenvolvimento sadio e, particularmente em Bion, de um “aparelho para pensar”. No caso da teoria de Winnicott, este modo de funcionar está intimamente relacionado ao que ele chamou de falso self, uma estrutura que aparta o sujeito de si mesmo, resultando numa adaptação do bebê ao ambiente, ao invés do oposto. É provável que, neste caso, a mente seja usada de forma defensiva, ou seja, que não possa ser utilizada em favor do verdadeiro-self, mas meramente para protegê-lo.

Em Bion, é possível pensar que quando a função-alfa fracassa, há um acúmulo de elementos-beta não assimiláveis, o que dá origem a um “aparelho” que se especializa defensivamente em identificação projetiva, visando livrar a mente de conteúdos indesejáveis. Assim, ao invés de fazer a “digestão” desses elementos ou conteúdos, esta forma de funcionar afasta cada vez mais a probabilidade do desenvolvimento de um aparelho que pensa os pensamentos. Bion comenta: “As tarefas que ficaram inconclusas, devido à ruptura na capacidade de reverie da mãe, são impostas à consciência rudimentar; todas elas, em diferentes graus, dizem respeito à função de correlacionar” (1962, p. 135, grifos dele). O autor entende que:

Da mesma forma que os dados sensoriais precisam ser modificados e trabalhados pela função alfa, para que se possa utilizá-los, […], os pensamentos, por sua vez, tem também de ser trabalhados para que passem a ser utilizáveis na tradução em

ação. (Bion, 1962, p.135)

Bion lembra que a identificação projetiva no início é necessária e se apresenta como uma forma útil de comunicação da relação mãe-bebê. Ele acredita que:

Esse primitivo método infantil sofre diversas vicissitudes […]. Poderá evoluir, caso a relação com o seio seja boa, e se transformar na capacidade de o self tolerar seus próprios atributos psíquicos, abrindo assim caminho para a função alfa e o pensamento normal. (Bion, 1962, p. 136)

Considerando a explicitação de algumas idéias presentes na obra de Bion, pode-se entender que a acumulação de elementos-alfa (conteúdos mentais com significado que podem ser utilizados para pensar), que foram gerados através da função-alfa materna, auxilia o bebê na introjeção dessa função e na constituição de um “aparelho para pensar”. É possível pensar que, na saúde, este “aparelho” deve propiciar que o psiquismo possa lidar com vários tipos de conteúdos, cada vez mais complexos e sofisticados, uma vez que tal “aparelho” continua se desenvolvendo por toda a vida.

Freud foi o primeiro a apontar a necessidade do ser humano de desenvolver um aparelho psíquico para lidar com o aumento de tensão ou excesso de estímulos na mente, uma vez que nem sempre havia condições para descarregá-los e a atividade alucinatória também não trazia satisfação. De acordo com ele, o processo primário (ligado ao princípio do prazer) estaria relacionado à tendência do indivíduo

de se livrar do acúmulo de tensão através da descarga imediata da mesma. O processo secundário (ligado ao princípio da realidade) estaria, por outro lado, relacionado ao adiamento dessa descarga que, se tolerada pelo sujeito poderia ajudar a melhorar o estado de desamparo e abrir novos caminhos de descarga. Ele também já havia dito antes (no seu “Projeto para uma psicologia científica”, 1895, p.364) que a consciência – concebida por ele como o sexto órgão dos sentidos (que se refere às qualidades psíquicas, inicialmente do tipo prazer/desprazer) –, vai se ampliando e agregando novas qualidades, novas percepções, o que produz no indivíduo uma maior possibilidade de ter notícias de sua realidade interna, assim como da realidade externa.

Parece que Bion desenvolveu e aprofundou essas idéias e introduziu a noção de que os pensamentos existem antes da capacidade para pensá-los, ou seja, antes de um “aparelho” que se ocupe deles. Assim, ele sugere chamar atenção para a função do pensamento, ou seja, como o indivíduo utiliza, ou não, os seus pensamentos. Neste sentido, ele diz:

Se o paciente não ‘pensa’ os pensamentos, isto é, se tem pensamentos mas carece de aparelho para ‘pensar’ que o capacite a usá-los, a pensá-los, a conseqüência primeira é intensificar-se a frustração pela falta de pensamento que possibilita ao aparelho mental suportar o aumento de tensão durante a demora do processo de descarga. (Bion, 1962, p. 118)

É o aparelho para pensar que se relaciona a essa função (de utilizar os pensamentos), bem como com a forma que o sujeito percebe o seu mundo interno, o externo, as formas de comunicação entre consciente e inconsciente, como ele articula e comunica os seus pensamentos, entre outras coisas. Quanto mais desenvolvimento do “aparelho para pensar”, mais percepção, mais relações são estabelecidas, maior capacidade de representação, simbolização e, portanto, maior capacidade para pensar. Assim, pode se afirmar que a forma de funcionar desse “aparelho para pensar” é expressão de níveis de funcionamento psíquicos. Pensar é: relacionar, articular idéias.

Podemos pensar que um psiquismo patológico seria especialista em fugir, se livrar daquilo que provoca frustração. Ele se especializaria em formas de escapar, de evadir-se de conteúdos desprazerosos. Este tipo de mente estaria como que povoada, por assim dizer, de elementos beta (que são as experiências sensoriais e emocionais primitivas – que não puderam ser transformadas e pensadas e por isso são evacuadas e expulsas do psiquismo, através da identificação projetiva). Desse modo, “se o pensar não se desenvolveu, a pessoa passa diretamente do impulso à ação, sem o menor espaço interveniente de pensamento”.

Por outro lado, um psiquismo que funciona de uma forma mais saudável tende a enfrentar situações de frustração, com a possibilidade de modificá-las. O que não é expulso pode ser notado, registrado, nomeado, relacionado e pode ser usado para aprender com a experiência. Além disso, este tipo de funcionamento tem a potencialidade de criar novas formas de lidar com diversos elementos, de viver e existir.

Vimos que Bion utilizou o modelo mãe-bebê para explicar como se constitui este aparelho, ou seja, do seu ponto de vista, no início da vida, o bebê precisa de outro psiquismo (o da mãe), para desenvolver um “aparelho para pensar”. De acordo com ele, é esta unidade mental (mãe-bebê) que propicia tal desenvolvimento. Sendo assim, o nascimento psíquico do ser humano está, para Bion, diretamente ligado à capacidade materna de rêverie e à função alfa da mãe.

No entender de Winnicott, ainda que diferentemente da compreensão bioniana e, além disso, sem formular a existência deste “aparelho para pensar”, como Bion concebeu, o nascimento psíquico do ser humano e de seu verdadeiro self está intimamente relacionado, assim como em Bion, a essa unidade mãe-bebê. Para

Winnicott, é a partir do estado materno de preocupação materna primária, que coloca a mãe numa condição psíquica especial (análoga a capacidade de rêverie que Bion descreve), que ela fornece ao bebê o que ele precisa, permitindo que sua continuidade de ser não seja interrompida. Desse modo, têm-se aqui dois autores, com duas teorias distintas, mas que se assemelham neste ponto, ou seja, na compreensão de que é a relação inicial mãe-bebê que permitirá que este último se desenvolva “suficientemente bem”, como Winnicott poderia dizer.

De acordo com as idéias de Bion, pode-se pensar que a papel fundamental da análise seria o de ajudar o paciente a desenvolver a função alfa, ou seja, capacitá-lo a não se livrar da frustração de imediato, mas antes, tentar modificá-la, através da capacidade de pensar. Se pensarmos como Winnicott, teríamos a função de ajudar nossos pacientes a encontrar o si mesmo, a sentir-se real, para que ele sinta que “a vida vale a pena ser vivida”. Para ele, o ser humano tem uma necessidade básica que constitui o próprio sentido de sua existência: ser e continuar a ser a partir de si-mesmo.

A continuidade do ser significa saúde. Se tomarmos como analogia uma bolha, podemos dizer que quando a pressão externa está adaptada à pressão interna, a bolha pode seguir existindo. Se estivéssemos falando de um bebê humano, diríamos “sendo”. Se por outro lado, a pressão no exterior da bolha for maior ou menor do que aquela em seu interior, a bolha passará a reagir à intrusão. Ela se modifica como reação a uma mudança no ambiente, e não a partir de um impulso próprio. Em termos do animal humano, isto significa uma interrupção no ser, e o lugar do ser é substituído pela reação

à intrusão. (Winnicott, 1988, p. 148, grifos dele)

De acordo com Winnicott, a potencialidade para ser depende fundamentalmente da sustentação ambiental inicial. Ocorrendo tal sustentação o bebê (o ser humano, nas suas mais diversas fases) pode agir a partir de si.

REFERÊNCIAS

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1 Winnicott entende que o primeiro ambiente que se constitui para o bebê é a mãe. Ele considera que tanto o cuidador quanto os cuidados referem-se ao ambiente.

2 A mente é entendida por Winnicott de forma diferente da compreensão de Bion, ou seja, ela é compreendida como uma especialização da parte psíquica do psicossoma, ou enquanto “especialização da psique saudável” (Winnicott, 1954a, p.333). Para ele, “a natureza humana não é uma questão de corpo e mente – e sim uma questão de psique e soma inter-relacionados, que em seu ponto culminante apresentam um ornamento: a mente” (Winnicott, 1988, p. 44).